mercredi 7 octobre 2009

A mente desperta tem que ser engajada


''Quando eu vivia no Vietnã, muitas das nossas aldeias foram bombardeadas. Em conjunto com meus irmãos e irmãs monásticos, tive que decidir o que fazer. Deveríamos continuar nossas práticas nos mosteiros ou deveríamos sair dos templos de meditação para ajudar as pessoas que sofriam com as bombas? Após uma reflexão cuidadosa, resolvemos fazer as duas coisas: sair para ajudar as pessoas e fazer isso com a plena consciência. Chamamos essa prática de budismo engajado. A plena consciência tem que ser engajada. Se existe a visão, tem que existir a ação. Do contrário, de que valeria a visão?

Devemos estar alertas para os verdadeiros problemas do mundo. Assim, com plena consciência, saberemos o que fazer e o que não fazer para ajudar. Se nos mantivermos cientes da nossa respiração e continuarmos a praticar o sorriso, mesmo em situações difíceis, muitas pessoas, animais e plantas irão se beneficiar da nossa forma de agir. Você massageia a Mãe Terra cada vez que o seu pé a toca? você costuma plantar sementes de alegria e paz? Eu tento fazer exatamente isso a cada passo, e sei que a Mãe Terra aprecia imensamente. A paz a cada passo. Vamos continuar nossa jornada?''

mardi 1 septembre 2009

A paz



Muita gente desabrigada sem lugar aonde morrar;
Sem uma família para lhe apoiar;

Sem nada nem paz em um pouco do mundo que precisa;

Nem se quer um chão para dormir;

E muita gente nem sente remorço ao ver todas essas desgraças;

Paz, amor, família, é isso que muita gente precisa...

fonte: http://www.mensagensvirtuais.com.br/mensagem-A-paz-7/

samedi 25 juillet 2009

Raiva e Reconciliação


*Era uma vez uma montanha onde muitos deuses viviam. Os deuses eram muito felizes. Eles pareciam não ter nada o que fazer. Eles passavam uma grande parte do tempo somente sentados ou caminhando. Havia um lindo riacho na montanha - a água era límpida e clara. Parecia que cada vez que alguém bebia daquela água se sentia leve e livre, sem desejo e sem raiva. Ao longo do riacho havia muitas cerejeiras que pareciam florir por todo o ano e os botões de cerejeira caíam na correnteza e se iam junto com a água. Alguns deles viajavam bastante longe, até a cidade que ficava no sopé da montanha.


Existia um homem nessa cidade que sofria tanto que queria morrer. Um dia, ele viu uma pétala de flor de cerejeira na correnteza e decidiu seguir seu caminho até a fonte. Ele disse a si mesmo que iria encontrar a fonte, mesmo que levasse anos. Depois de muitos anos de caminhada, ele chegou à montanha dos deuses e eles o convidaram a se aproximar, sentar-se junto da correnteza e tomar um pouco da água com as mãos. Depois de beber a água, o homem sentiu que não tinha mais desejo, nem mesmo desejo de cura e transformação. Ele se sentiu muito cansado, não queria mais nada - queria desistir de tudo.

Ele se deitou à margem do riacho e caiu em sono profundo. Durante o sono, a água continuou a trabalhar em seu corpo e em sua mente, transformando e purificando. Como ele se permitiu dormir profundamente, o trabalho de cura e transformação foi bastante fácil para ele. Ele não fez nada, apenas se deitou e permitiu que a água que havia bebido trabalhasse nele. Alguns dos deuses tomaram conta dele - pegaram dois seixinhos que pareciam olhos de gato, foram ate ele enquanto dormia e trocaram seus olhos pelos seixos. Agora ele tinha novos olhos.

O homem dormira por muito tempo. Depois de uma semana, ele se acordou. Ficou em pé, viu o céu, as árvores como nunca tinha visto antes. Quando ele chegou, o céu e as árvores já estavam ali, mas ele parecia não ter visto do mesmo jeito, pois agora tinha novos olhos. De fato, tudo nele havia mudado. Tinha agora novos ossos, novo coração, novos intestinos - estava completamente transformado. Sentia-se agora como se fosse um dos deuses e não queria mais ir embora. Ele disse: "Eu não quero voltar pra casa, para aquele lugar, eu quero ficar aqui com vocês". Mas um dos deuses replicou: "Você tem que voltar pra casa e ajudar o seu povo". E o homem disse: "Se voltar pra casa, ficarei sozinho. Não conseguirei lidar com isso lá embaixo. É tão difícil! Eu não quero voltar nunca mais para aquele lugar". Um dos deuses, porém disse-lhe: "Olhe, quando você voltar pra casa, não verá mais as coisas do mesmo jeito que via no passado. Antes, você enxergava o céu e as árvores, mas agora, depois de uma semana, você já vê realmente o céu e as árvores. Não tenha medo de voltar pra casa. Com seus novos olhos, novos pulmões e novos ossos você verá as coisas de maneira diferente, não precisará sofrer. E sabe de uma coisa? Mesmo quando você voltar você continuará a nos ver. Nós não estamos somente aqui, estaremos lá embaixo com você".

O homem então entendeu. Disse adeus aos deuses, à montanha e ao riacho e começou a jornada de volta. Mas desta vez, não levou vários anos, como para subir. Levou apenas uma manhã. Os deuses estavam certos. Quando chegou em casa com seu novo ser, ele não viu a situação de maneira tão ruim e desesperadora como antes. Ele agora era capaz de olhar com solidariedade e clareza, seu coração estava aberto e era capaz de redescobrir os seres humanos de uma forma nova.Ele sentiu a solidariedade crescendo nele por que viu que muitos seres humanos estavam presos a idéias, ideologias, religião e cultura e que, por isso, sua verdadeira natureza humana não podia ser vista. Mas agora, depois que se tornou uma pessoa livre, pôde descobrir seres humanos mesmo dentro de verdadeiros cadáveres. Por isso, quando ele os olhava e os ouvia, não se sentia mais irritado ou frustrado. Com seu sorriso, podia ajudá-los a mudar sua situação. Ele descobriu que não estava sozinho. Todos os deuses com os quais se encontrara na montanha estavam bem ali para ajudá-lo e para lhe fazer companhia.

Essa estória é feliz por que o homem foi capaz de passar sete dias na montanha permitindo a si mesmo ser objeto de transformação e cura através da água da solidariedade. Ele não fez absolutamente nada durante o tempo em que ficou na montanha. Não praticou nada, praticou a não prática. Apenas permitiu a si mesmo ser abraçado pela montanha, pelo riacho, pelas árvores, para se renovar. Assim, ele conseguiu novos olhos, novos ouvidos, novos ossos e novo coração. Se ele tivesse ido à montanha somente para procurar idéias e respostas para levar pra casa, não teria sido capaz de retornar solidário e sem medo. Ele não foi à montanha em busca de teorias, ideologias, táticas ou estratégias. Ele foi lá para se renovar e deixou que essa renovação ocorresse. Quando voltou para casa, não levou ensinamentos, práticas ou respostas - apenas levou a si mesmo, totalmente renovado.

Vocês (israelenses e palestinos, NT) não precisam de respostas de outras pessoas sobre como mudar suas relações pessoais e com o resto do mundo. Se vocês mudarem seus olhos e corações, não precisarão de mais nada. Não precisam de nenhuma prática ou estratégias. Encontrem o riacho, bebam da sua água, deitem-se e permitam que a água faça o resto.
Como Seres Humanos, Somos Exatamente o Mesmo


Às vezes é mais fácil ficar com raiva do que expressar seu próprio sofrimento. Os israelenses pensam que não são árabes, mas são muito semelhantes aos árabes. São seres humanos. Eles não querem morrer, mas viver em segurança. Eles querem fraternidade, irmandade e paz. Estamos separados por nomes como "Budista","Cristão","Judeu", "Muçulmano". Quando ouvimos uma dessas palavras, vemos uma imagem e nos sentimos alienados, não nos sentimos conectados. Construímos muitas estruturas para estarmos separados uns dos outros e para fazermos sofrer uns aos outros. Por isso é importante descobrir o ser humano na outra pessoa, e ajudar a outra pessoa a descobrir o ser humano em nós. Como seres humanos, somos exatamente o mesmo. Se você tem muitas camadas de roupa sobre si mesmo, você evita que outras pessoas vejam você como um ser humano. Ser "Budista" pode ser uma desvantagem, por que se você carrega esse título pode ser um obstáculo e as pessoas podem não ser capazes ver o ser humano em você. Da mesma maneira se se carregar a marca "Muçulmano", que pode fazer muitas pessoas se desviarem de você, pois elas estão tão agarradas a essas noções que não podem se reconhecer umas às outras como seres humanos. É uma pena. É por isso que o Mestre Lin Chi disse que você tem que queimar todos esses obstáculos, jogá-los fora e queimá-los. Esta é uma prática verdadeira - queimar tudo para que o ser humano seja revelado. Este é o trabalho da paz.

Em 1963, eu estava sentado com alguns dos meus estudantes no campus da Universidade de Columbia em Nova Iorque. A manhã estava linda, o sol estava brilhando e estávamos conversando entre nós sobre a prática budista de remover conceitos. De repente, alguém passou, parou, olhou para mim por alguns segundos e me perguntou: "Você é budista?". Olhei para ele e disse "Não". Disse uma mentira? Espero que meus estudantes tenham me entendido naquele momento. Se eu tivesse dito "Sim, sou budista", ele poderia ser apanhado pela idéia do que um budista deva ser, e isso não vai ajudá-lo. Assim, "Não" foi de mais ajuda que um "Sim". Esta é a linguagem do Zen. Se você diz ou faz alguma coisa é para ajudar a desfazer os nós nas mentes das pessoas e não amarrá-las. É por isso que a linguagem que usamos deve ter como objetivo a libertação.

Quando ouvimos os palestinos e todo o sofrimento pela qual passam, entendemos seu sofrimento por que sofremos também. Não queremos comparar nosso sofrimento com o deles, mas entendermos o sofrimento como uma realidade. Esta é a Primeira Nobre Verdade, "o sofrimento existe". É claro, queremos que o sofrimento acabe. Não queremos que eles sofram mais. E se alguém dissesse: "Estamos sofrendo. Fomos vítimas. Você ficará do nosso lado? Você estará comigo para se opôr a todos aqueles que criaram esse sofrimento?". Então seria muito difícil de responder. Você está com eles, compreende profundamente seu sofrimento, mas se pedem pra você se juntar a eles na luta pela destruição daqueles que acreditam ser seus inimigos, você reluta, você sabe que eles tentaram esse método por vários anos e não conseguiram. Eles não estavam sozinhos nesta luta - tiveram apoiadores tanto no país quanto no estrangeiro, mas essa corrente de ação - tentar destruir os chamados inimigos - não deu em nada e, de fato, não diminuiu o sofrimento, apenas o aumentou.

Reluto em dizer que estou do seu lado, que eu apoio vocês de todo coração, que farei tudo o que vocês quiserem que eu faça. Não estou pronto pra escolher um lado assim. Eu perguntaria: "Sim, estou pronto pra ficar do seu lado, mas você está pronto pra ficar do meu? Sou um ser humano como você, você sabe qual o meu lado? É o de que o sofrimento deve parar. Concordo com você que algo tem que ser feito e deveria ter sido feito para parar o sofrimento. Mas eu não posso concordar com outras coisas da sua posição. Quero agir, quero ter solidariedade, mas não quero agir baseado na raiva, na violência e na discriminação. Se você ficar do meu lado, estarei com você cem por cento".

Quando você apóia alguém, você traz consigo todo o seu ser nesse apoio. No seu ser está sua sabedoria e solidariedade. Sem essa sabedoria e solidariedade você não pode apoiar ninguém. Se eu ficar do seu lado, não vai significar que eu irei ajudar a construir uma cerca, destruir uma cidade ou levar uma bomba para explodir os passageiros. Apesar de estar com você no seu sofrimento e no seu desejo de acabar com o sofrimento, não posso estar com você nesse tipo de ação. Acredito que existem muitas maneiras de acabar com o sofrimento e ajudar os chamados inimigos a também acabar com o sofrimento deles. Para mim existe um caminho bastante claro. Se mantivermos os venenos do desespero, da raiva e da violência dentro de nós, continuaremos a sofrer, e qualquer ação que fizermos não beneficiará ninguém.

Por isso, ir à montanha, deitar-se e deixar que a água da solidariedade transforme você e remova esses venenos é crucial. Não estou aqui na montanha para pedir aos deuses que se juntem a mim no combate aos meus inimigos. Estou aqui para permitir aos deuses que me ajudem a remover os venenos da violência, medo, desespero e raiva. Então eu sei que, quando eu voltar para casa como uma nova pessoa, poderei ajudar muitas outras pessoas, pois desta vez, estarei equipado com os elementos da compreensão, solidariedade, serenidade e solidez.

Injustiça é sofrida pelos dois lados. Os palestinos têm sofrido muito. E quando os israelenses vêm e descrevem para nós o seu sofrimento, somos capazes de ver que também têm sofrido. Esse tipo de compreensão é crucial. Uma vez que a compreensão e a solidariedade tenham nascido em nosso coração, os venenos da raiva, discriminação, ódio e desespero serão transformados. Por isso é que a única resposta é remover o veneno e deixar que o insight e a solidariedade entrem. Então eles irão se descobrir uns aos outros como seres humanos e não ficarão desapontados com as aparências externas como "Budismo", "Islã", "Judaísmo", "Pró-americano", "Pró-árabe" etc. Este é o processo de libertação da nossa ignorância, idéias e noções e da nossa tendência a discriminar. Quando vejo você como um ser humano que sofre bastante, não terei coragem de atirar em você. Pedirei a você que venha trabalhar comigo para que tenhamos chance de vivermos juntos em paz. É uma pena - a Terra é tão bonita e existe ainda tanto espaço para todos - que continuemos a nos matar uns aos outros.

* Retirado do Capítulo V do livro de Thich Nhat Hanh -
"Peace Begins Here: Palestinians and Israelis Listening to Each Other"
Tradução Samuel Cavalcante
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dimanche 28 juin 2009

Natureza e Não-Violência

(Capítulo do livro de Thich Nhat Hanh "The World We Have",
tradução de Samuel Cavalcante)


Suponhamos que a gente pegue uma semente de milho e a plantemos em um solo úmido. Uma semana depois ou mais, a semente irá germinar. Depois de três dias, podemos voltar e perguntar ao brotinho “querida planta, você se lembra do tempo em que você ainda era uma semente?”. O brotinho pode ter esquecido, mas como ficamos observando, sabemos que o brotinho de milho realmente veio do grão.

Quando olhamos para a planta não vemos mais a semente e, assim, pensamos que a semente morreu. Mas ela não morreu, ela se tornou a planta. Se você for capaz de ver a semente de milho no pé de milho, você tem um tipo de sabedoria que o Buda chamou de sabedoria da não-dsicriminação. Você não dsicrimina entre a semente e a planta. Você vê que elas intersão entre si, que elas são a mesma coisa. Você não pode distinguir a semente da planta e nem a planta da semente. Olhando com profundidade uma espiguinha de milho você pode ver a semente de milho lá, ainda viva, mas com uma nova aparência. A planta é a continuação da semente.

A prática da meditação nos ajuda a ver coisas que as outras pessoas não vêem. Olhamos profundamente e podemos ver que o pai e o filho , pai e filha, mãe e filho, mãe e filha, grão de milho e espiga de milho têm uma relação muito próxima. É por isso que temos que praticar pra despertamos para o fato, para a verdade de que intersomos. O sofrimento de um é o sofrimento de outro. Quando muçulmanos e cristãos, hindus e muçulmanos, israelenses e palestinos, perceberem que são irmãos e irmãs uns pros outros, que o sofrimento de um lado é o sofrimento do outro lado, então essas guerras logo acabarão. Quando virmos que nós e todos os seres vivos somos feitos da mesma natureza, como é que poderão existir ainda divisões entre nós? Como poderá ainda existir essa falta de harmonia? Quando percebermos o interser da nossa natureza, pararemos de culpar, explorar e matar, pois saberemos que todos intersomos. Este é o grande despertar que devemos cultivar para que a Terra seja salva.

Nós, seres humanos, sempre tivemos a pretensão de sermos únicos, de estarmos fora da natureza. Classificamos os outros animais e seres vivos como “natureza”, como algo aparte de nós, e agimos como se fôssemos mesmo separados. Então nos perguntamos “Como devemos tratar a natureza?”. Ora, nós devíamos tratar a natureza da mesma maneira que devemos tratar a nós mesmos: de maneira não-violenta. Seres humanos e natureza são inseparáveis. Assim como não devemos ferir a nós mesmos, não devemos ferir a natureza e vice-versa.

Causar danos em outros seres humanos, causa danos em nós mesmos. Acumular excessivamente riquezas e possuir porções excessivas dos recursos naturais tiram dos outros seres humanos a chance de viver. Participar em sistemas sociais opressivos e injustos cria um abismo entre ricos e pobres e agrava a situação da injustiça social. Toleramos excessos, injustiças e guerras sem nos atentarmos para o fato de que a espécie humana sofre como uma família. Enquanto o resto da família humana sofre e passa fome, o gozo da falsa segurança e a riqueza são ilusões.

Está claro que o destino de cada indivíduo está inextrincavelmente ligado com o destino de toda a espécie humana. Temos que deixar os outros viver se quisermos viver. A única alternativa para a coexistência é a co-não-existência. Uma civilização na qual temos que matar e explorar outros para viver não é uma civilização sadia. Para criarmos uma civilização sadia, todos temos que ter igual acesso à educação, trabalho, comida, abrigo, cidadania mundial, ar puro e água limpa e a capacidade de circular livremente e escolhermos morar em qualquer lugar do planeta. Sistemas políticos e econômicos que negam a alguém esses direitos ferem toda a família humana. A vigilância acerca do que está se passando com a família humana é necessária para reparar os danos já provocados.

Para gerar a paz no interior da família humana temos que trabalhar por uma coexistência harmônica. Se continuarmos a nos isolar do resto do universo, aprisionando-nos em preocupações estreitas e problemas imediatos, vai parecer que não queremos construir a paz ou sobreviver. A espécie humana é parte da natureza. Precisamos cultivar este insight antes para podermos ter harmonia entre as pessoas. Crueldade e destrutividade destróem a harmonia da família humana e destróem a natureza. Entre as medidas para remediar essa situação está uma legislação que não seja violenta nem para nós nem para a natureza e que nos ajude a evitar nos tornarmos destrutivos e cruéis.

Cada indivíduo e toda a humanidade é parte da natureza e deveria ser capaz de viver em harmonia com ela. A natureza pode ser cruel e destrutiva. Mas nós precisamos tratar a natureza do mesmo jeito que tratamos a nós mesmos como indivíduos e como família humana. Se a gente tentar dominar e oprimir a natureza, ela se rebela. Devemos ser amigos da natureza para lidarmos com alguns de seus aspectos e criarmos harmonia com o nosso meio ambiente. Isto requer uma compreensão inteira da natureza. Tufões, tornados, secas, enchentes, erupções vulcânicas, proliferação de insetos perigosos, tudo isso se consitui em perigo para a vida. Podemos evitar grande parte da destruição que os desastres naturais causam se trabalharmos com o ambiente desde o início, fazendo planos e construindo decisões que levam em conta a natureza do lugar, ao invés de tentar impor o controle completo sobre ela com barragens, desmatamento e outros dispositivos e políticas que, no final, causam só mais prejuízos.

Um exemplo do que acontece quando tentamos controlar completamente a natureza é o nosso uso excessivo de pesticidas, que mata indiscriminadamente muitos insetos e pássaros e perturba o equilíbrio ecológico. Um crescimento econômico que devasta a natureza ao poluir e exaurir recursos não renováveis torna impossível para os seres vivos viver no planeta Terra. Tal crescimento pode parecer temporariamente benéfico para algumas pessoas, mas na realidade, rasga e destrói a natureza como um todo. A harmonia e o equilíbrio entre os indivíduos, sociedade e a natureza está sendo destruída. Os indivíduos estão doentes, a sociedade está doente e a natureza está doente. Precisamos restabelecer o equilíbrio, mas como? Por onde começar o trabalho de cura – pelo indivíduo, pela sociedade ou pela natureza? Precisamos trabalhar nos três domínios. Pessoas de diferentes disciplinas científicas tendem a focar suas áreas particulares. Por exemplo, políticos consideram que um efetivo rearranjamento da sociedade é necessário para a salvação dos humanos e da natureza, e, portanto, enfatizam que todos devem se engajar na luta para mudar o sistema político.

Os monges budistas são como psicoterapeutas, tendemos a ver o problema pela ótica da saúde mental. A meditação objetiva criar harmonia e equilíbrio na vida do indivíduo. A meditação budista lida tanto com o corpo quanto com a mente e usa a respiração como instrumento para acalmar e harmonizar o ser humano como um todo. Como em qualquer prática terapeutica, o paciente é colocado em um ambiente que favoreça a restauração da harmonia. Usualmente os terapeutas passam o tempo observando e pontuando seus pacientes. Portanto, eu conheço alguns que, como os monges, observam a si mesmos primeiro, reconhecendo a necessidade de libertarem-se primeiro a si mesmos dos medos, ansiedade e desespero que existem dentro de cada um de nós. Muitos terapeutas parecem pensar que não têm problemas mentais, mas o monge reconhece em si mesmo sua própria suscetibilidade aos medos e ansiedades, e à doença mental causada pelo caráter desumano de nossos sistemas sociais e econômicos.

Os praticantes budistas acreditam que a natureza interconectada do indivíduo, da sociedade e da ambiente físico se revelará a nós à medida em que nos curamos e assim não seremos mais possuídos pelas ansiedades, medo e pela dispersão da mente. Dentre os três domínios – indivíduo, sociedade, natureza – é o individuo que começa a efetivar a mudança. Mas para isso, o indivíduo tem que estar inteiro. E já que isso requer um ambiente favorável à cura, o indivíudo tem que buscar um estilo de vida livre da destrutividade. Nossos esforços para mudar a nós mesmos e o meio ambiente são ambos necessários, mas um não pode acontecer sem o outro. Sabemos como é difícil mudar o meio ambiente se os indivíduos não estiverem em equilíbrio. Nossa saúde mental tem como premissa que o nosso esforço de recuperar nossa humanidade deve ser nossa prioridade.

Restaurar nossa saúde mental não significa simplesmente nos ajustarmos ao mundo moderno, de rápido crescimento econômico. O mundo está doente e se adaptar a um ambiente doente assim não trará saúde real. Muitas pessoas que precisam de psicoterapia são, na realidade, vítimas da vida moderna que nos separa uns dos outros e do resto da família humana. Uma maneira de ajudar é se mudar para uma área rural, onde se têm a chance de cultivar a terra, plantar e colher o próprio alimento, lavar as roupas no rio e viver de maneira simples, partilhando da mesma vida que milhões de camponeses mundo afora.

Para que a terapia seja efetiva, precisamos de uma mudança do meio ambiente. Atividades políticas são um recurso apenas, mas não o único. Tranquilizarmo-nos através do consumo descontrolado não é a solução. O envenenamento do nosso ecossistema, a explosão de bombas, a violência nos bairros e na sociedade, a pressão do tempo, o barulho, as multidões solitárias – tudo isso foi criado no curso desse nosso crescimento econômico e são fontes de doenças mentais. Ao fazer o que quer que seja para eliminar estas causas, estaremos praticando uma medicina preventiva.

Manter nossa saúde mental como nossa prioridade número um significa também reconhecer nossa responsabilidade pela família humana inteira. Precisamos agir para evitar que os outros fiquem doentes ao mesmo tempo em que protegemos nossa própria humanidade. Quer sejamos monges , monjas, professores, terapeutas, artistas, carpinteiros ou políticos, somos todos humanos também. Se aplicarmos a nós mesmos o que tentamos ensinar aos outros, tornaremo-nos mentalmente doentes. Se apenas continuarmos com nossas vidas, convivendo com o status quo, gradualmente nos tornaremos vítimas do medo, da ansiedade e do egoismo. Uma árvore se revela a si mesma para um artista quando ele consegue estabelecer uma certa relação com ela. Alguém não suficientemente humano poderá olhar para seus similares humanos e não vê-los, poderá olhar para uma árvore e não vê-la. Muitos de nós não conseguimos ver as coisas por que não somos completamente nós mesmos. Quando somos completos, podemos ver uma pessoa e, através de uma vida integral, demonstrar para todos que a vida é possível, que o futuro é possível. Mas a questão “O futuro é possível?” não tem sentido se não formos capazes de ver os milhões de outros seres humanos que sofrem, vivem e morrem à nossa volta. Depois de conseguirmos vê-los realmente, seremos capazes de ver a nós mesmos e ver a natureza. Lembremos o tsunami no Oceano Índico de 2004, que matou centenas de milhares de pessoas da Indonésia, Sri Lanka, Tailândia, Índia e África. Gente vinda da Europa, Austrália e Estado Unidos, que ali passavam as férias, também morreram. Todo mundo sofreu muito e ficamos nos perguntando por quê? Por que Deus permitiu que isso acontecesse? Por que essas pessoas morreram? Eu também sofri. Mas eu pratiquei. Sentei-me e pratiquei o olhar profundo. E o que eu vi foi que quando essas pessoas morreram, nós também morremos com elas, por que todos nós intersomos com elas.

Você sabe que quando uma pessoa amada morre, uma parte de você também morre; de alguma maneira você morre com essa pessoa. Isso é fácil de entender. Assim, se tivermos compreensão e solidariedade, quando virmos outras pessoas morrendo, mesmo pessoas estranhas do outro lado do mundo, nós sofreremos e morreremos com elas. O que descobrimos é que elas morrem por nós. Assim, temos que viver por elas. Temos que viver de tal modo que o futuro seja possível para as nossas crianças e para as crianças delas. Se a morte delas terá ou não um significado, dependerá de nosso modo de vida. Este é o insight do interser. Elas são nós e nós somos elas. Quando elas morrem, também morremos. Quando continuamos a viver, elas continuam a viver conosco. Com este insight, você sofrerá menos e saberá como continuar. Você as carrega dentro de si e, sabendo disso, fica em paz.

Praticar a plena consciência e olhar profundamente na natureza das coisas é descobrir sua verdadeira natureza, a natureza do interser. Encontraremos a paz e podemos gerar a força que precisamos para estar em contato com tudo. Com este entendimento, podemos facilmente sustentar o trabalho de amor e cuidado pela Terra, e por nós mesmos, por um longo tempo.

jeudi 11 juin 2009


Pensamos demasiadamente
Sentimos muito pouco
Necessitamos mais de humildade
Que de máquinas.
Mais de bondade e ternura
Que de inteligência.
Sem isso,
A vida se tornará violenta e
Tudo se perderá.

Charles Chaplin